Terapia para Bariátrica: Por Que o Acompanhamento Psicológico é Tão Importante

Por que a terapia é parte do tratamento da cirurgia bariátrica: avaliação obrigatória, riscos emocionais do pós-operatório, terapia cognitivo-comportamental e grupos de apoio, com base em diretrizes do CFP, SBCBM e estudos científicos.

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Ilustração de duas pessoas conversando em ambiente acolhedor, com o título “Terapia para Bariátrica”

A cirurgia bariátrica muda o estômago em poucas horas. Mudar a relação da pessoa com a comida, o corpo e as próprias emoções leva muito mais tempo — e é aí que entra a terapia. Não é um item burocrático do processo, é parte do tratamento.

1. Por que a avaliação psicológica é obrigatória #

No Brasil, a avaliação psicológica é um procedimento obrigatório dentro do protocolo da cirurgia bariátrica, prevista na Resolução CFM nº 2.131 e reforçada pelo Conselho Federal de Psicologia, que inclui o psicólogo na equipe multiprofissional responsável por autorizar e acompanhar o paciente. Um dos exames obrigatórios do protocolo é justamente o atestado de saúde mental, que pode ser emitido por psicólogos ou psiquiatras.

Essa exigência não é burocracia: o CFP aponta que a literatura já documenta correlações entre o pós-operatório e quadros de depressão, comportamento antissocial e, em casos mais graves, risco de suicídio — daí a urgência de um acompanhamento estruturado antes e depois da cirurgia, segundo o Conselho Federal de Psicologia.

As diretrizes brasileiras de assistência psicológica em cirurgia bariátrica e metabólica, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), recomendam pelo menos três consultas psicológicas no pré-operatório, conduzidas por profissionais com formação atualizada em obesidade, transtornos alimentares e cirurgia bariátrica, conforme aponta o Painel Obesidade.

2. O que acontece na cabeça durante o pré-operatório #

O período que antecede a cirurgia já concentra uma alta prevalência de sofrimento psíquico. Um estudo publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar identificou indicadores de depressão em 46,7% dos candidatos entrevistados e de compulsão alimentar em 53,3% deles. Transtornos alimentares, compras compulsivas, quadros depressivos, de ansiedade e uso de substâncias — principalmente álcool — estão entre os diagnósticos mais frequentes identificados na avaliação psiquiátrica pré-cirúrgica.

É por isso que o trabalho do psicólogo nessa fase não se limita a “liberar” o paciente para a cirurgia. Segundo o Painel Obesidade, citando a SBCBM, o foco está em promover “um trabalho de autoobservação, autoavaliação e análise de todos os fatores que levaram e mantiveram a obesidade” — investigando histórico familiar, relação com a comida e rede de apoio disponível.

3. Os riscos emocionais do pós-operatório #

A cirurgia bariátrica não é, como resume o Painel Obesidade, uma “solução milagrosa”, mas uma ferramenta para mudar hábitos — e essa mudança pode ser emocionalmente turbulenta. Parte significativa dos pacientes apresenta piora ou surgimento de sintomas psíquicos após a cirurgia, como depressão, ansiedade e compulsão alimentar.

Entre os desafios mais comuns dessa fase estão:

  • Adaptação a uma rotina alimentar completamente nova, muitas vezes sem o suporte emocional que a comida representava antes;
  • Necessidade de incorporar hábitos de atividade física que o paciente pode nunca ter praticado;
  • Ajuste da autoimagem diante de mudanças corporais rápidas;
  • Pressão social e cobranças externas sobre o corpo “novo”.

O acompanhamento psicológico ajuda a fortalecer autoestima e resiliência diante dessas cobranças, funcionando como um espaço de apoio para que o paciente não enfrente essa transição sozinho, segundo especialistas consultados pelo Psicólogos Paulista.

4. Terapia cognitivo-comportamental: a abordagem que mais aparece nos estudos #

Entre as linhas terapêuticas usadas com pacientes bariátricos, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a que mais aparece na literatura científica brasileira como tratamento coadjuvante à cirurgia, segundo estudos publicados na Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. Pesquisas indicam que intervenções cognitivo-comportamentais breves em grupo — em apenas quatro sessões — já reduzem comportamentos e cognições ligados à compulsão alimentar em candidatos à cirurgia.

A TCC em grupo (TCCG) tem eficácia equivalente à individual e, dependendo da demanda, pode até superá-la. Os benefícios relatados nos estudos incluem melhora na qualidade da alimentação, perda de peso, bem-estar, autoestima e qualidade de vida geral, além do desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e alívio emocional.

5. Grupos de apoio: por que fazem tanta diferença #

Além do atendimento individual, grupos de apoio pós-bariátrica aparecem como estratégia relevante na literatura, funcionando como espaço de compartilhamento de experiências entre pessoas que passaram — ou estão passando — pela mesma transição. Um relato de experiência publicado na PePSIC descreve como esses grupos ajudam pacientes a lidar com dificuldades emocionais comuns ao pós-operatório, reforçando o senso de pertencimento e reduzindo o isolamento nessa fase.

Entre os ganhos descritos em estudos sobre TCC em grupo estão o desenvolvimento de habilidades interpessoais, o autoconhecimento e maior segurança diante das mudanças corporais — fatores que, somados, contribuem para melhor humor e socialização entre os participantes.

6. Como saber se você precisa de mais suporte #

Não existe um “momento certo” único para buscar ajuda — o acompanhamento psicológico deve acompanhar toda a jornada, do pré ao pós-operatório de longo prazo. Alguns sinais indicam que vale a pena reforçar o suporte:

  • Voltar a comer em resposta a emoções (tristeza, ansiedade, tédio), mesmo sabendo que a quantidade de comida agora é limitada;
  • Mudanças bruscas de humor, isolamento social ou perda de interesse em atividades que antes davam prazer;
  • Dificuldade em aceitar a nova imagem corporal, mesmo diante da perda de peso;
  • Sensação de que a rede de apoio (família, parceiros, grupo social) não está dando conta de acompanhar as mudanças.

Se algum desses pontos soa familiar, o caminho não é enfrentar sozinho: procurar um psicólogo com experiência em obesidade e cirurgia bariátrica — individualmente ou em grupo — é parte do tratamento, não um passo opcional.

Referências #

  1. Conselho Federal de Psicologia — Avaliação psicológica: cirurgia bariátrica e de readequação genital — obrigatoriedade da avaliação psicológica, base na Resolução CFM 2.131 e riscos documentados no pós-operatório.
  2. SBCBM — Diretrizes brasileiras de assistência psicológica em cirurgia bariátrica e metabólica — diretrizes técnicas para o acompanhamento psicológico pré e pós-cirúrgico.
  3. Painel Obesidade — O acompanhamento psicológico após a cirurgia bariátrica — papel do psicólogo, recomendações da SBCBM e desafios do pós-operatório.
  4. Psicólogos Paulista — A importância de um psicólogo antes e depois da cirurgia bariátrica — papel do acompanhamento no fortalecimento da autoestima e resiliência.
  5. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar — Ansiedade, depressão e compulsão alimentar em candidatos à cirurgia bariátrica — dados de prevalência de depressão e compulsão alimentar em candidatos à cirurgia.
  6. PePSIC — Grupo de apoio psicológico pós cirurgia bariátrica: relato de experiência — relato sobre o funcionamento e os benefícios de grupos de apoio pós-cirúrgicos.
  7. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas — A terapia cognitivo-comportamental e a cirurgia bariátrica como tratamentos para a obesidade — eficácia da TCC individual e em grupo para pacientes bariátricos.